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19/06/2018

Guia de Estudos - Eutanásia

Guia de Estudos - 2018


Distanásia X Eutanásia e Ortotanásia

A distanásia, é a continuação, por meios artificiais, de um tratamento ou de uma medicação que visa a manter vivo um enfermo incurável. Esse prolongamento do processo de morte por consequência prorroga também o sofrimento do paciente. Já a eutanásia (do grego, Eu– bom; Thanatos– morte), em sua visão clássica, consiste em se provocar a morte de uma pessoa antes do previsto, pela evolução natural da moléstia, um ato misericordioso devido a um padecimento não suportável, decorrente de uma doença sem cura. ordenamento jurídico brasileiro não apresenta tipificação da eutanásia como crime, mas ela é enquadrada como um homicídio. O código de ética médica vai de encontro a essa prática, enquanto a ortotanásia é aceita pelo Conselho Federal de Medicina, desde 2010. A ortotanásia é um conceito situado entre dois extremos: distanásia e eutanásia. Designa o processo pelo qual se opta por não submeter um paciente terminal a procedimentos invasivos que adiam sua morte e que, ao mesmo tempo, comprometem sua qualidade de vida. Portanto, cabe à ortotanásia a promoção de cuidados paliativos ao paciente que, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), "são aqueles que melhorem a qualidade de vida dos pacientes e de suas famílias que enfrentam o problema associado com doenças terminais, com a prevenção e a privação de sofrimento, por meio da identificação antecipada, da avaliação precisa e do tratamento da dor e de outros sintomas, sejam físicos, psicossociais e espirituais".

Historiadores apontam que a eutanásia é um tema antigo, já discutido entre os filósofos gregos Platão e Sócrates, de maneira que os povos primitivos, como os celtas, já a praticavam. Atualmente, caracteriza-se como um tema polêmico (tabu), sendo pauta de muitos congressos religiosos e médicos. A discussão acerca da validade dessa prática gira em torno do que é a dignidade de vida e se sua ausência justifica a abreviação do viver. Além disso, a responsabilidade ética dos profissionais da saúde e as condições psicológicas do indivíduo que opta pela eutanásia são temáticas abordadas nesse debate.

Conduta diante da morte cerebral
Em um quadro de coma irreversível, são deixadas de serem executadas manobras terapêuticas que mantenham as funções vitais em funcionamento. O paciente já está morto, dentro dos critérios, atuais, aceitos pela comunidade médica científica e pelos órgãos normativos do exercício profissional no que tange à ética médica. Portanto, não há caracterização como eutanásia. Sob o prisma jurídico, a morte somente ocorre após a cessação da atividade cerebral. Antes deste momento, o paciente ou doente terminal encontra-se no processo do morrer, razão pela qual deve ser assegurada a dignidade até o fim da sua vida.
A detecção da morte encefálica pode ajudar a diminuir o sofrimento da família que, na maior parte das vezes, se desgasta com as intercorrências do paciente com internação prolongada. Ao mesmo tempo, após o seu diagnóstico, pode-se considerar a doação de órgãos, trazendo esperança para aqueles que sofrem nas longas filas de espera. Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil realizou em 2016 mais de 24 mil transplantes. Cerca de 40 mil pessoas ainda aguardam na fila por um transplante e quase metade das famílias consultadas nega a autorização para doar órgãos. Caso o paciente diagnosticado com morte encefálica não seja doador, o médico está autorizado a desligar os aparelhos de suporte de vida. 


Inviolabilidade do direito à vida X Direito a uma morte digna

A eutanásia envolve o direito mais sublime do ser humano, que é o direito à vida, consagrado constitucionalmente. Esse, por sua vez, consiste no direito de sobreviver, de defender a própria vida, de buscar meios de permanecer vivo, com saúde e dignidade, impedindo que a mesma seja interrompida por qualquer meio que não seja a morte natural e inevitável. Nesse entendimento, exclui-se o direito de morrer dos indivíduos.

A inviolabilidade do direito à vida refere-se a não privação arbitrária do mesmo, que é responsabilizada criminalmente. Consta na Constituição Federal como o mais fundamental dos direitos e no Código Penal, no qual estão estabelecidas sanções para aqueles que a ferirem.

“O direito à vida, na sua acepção mais ampla, tutela não um dever de existir, mas, sim, uma vida digna e com qualidade. É sob essa óptica, que se edifica a ortotanásia, haja vista que conclama pela preservação da dignidade do paciente em todas as fases da sua vida, inclusive na derradeira. Centrada nos cuidados paliativos e na autonomia da vontade, propõe para o doente terminal uma assistência holística, isenta da obstinação terapêutica”.

 “A morte digna enfatiza o respeito à dignidade do enfermo, não o mantendo artificialmente conectado a aparelhos, entubado com respiração assistida e com a manutenção artificial de dados vitais, sem qualquer possibilidade de cura e num processo iniciado de morte. Trata-se da não agressão à dignidade do ser humano, o seu direito à autonomia (quando possível) na tomada de decisão sobre a suspensão do uso de meios desproporcionais. A morte digna do paciente poderá ocorrer em ambiente hospitalar ou residencial, sempre na presença dos entes queridos, familiares e pessoas do convívio, amparado pela equipe médica qualificada em cuidados paliativos, como afirmou Luís Gonzaga do Amaral, conselheiro do Conselho Regional de Medicina do Estado de Minas Gerais (CRM-MG) à reportagem do jornal daquela instituição”.



Direito individual e moralidade religiosa nas sociedades laicas contemporâneas


O direito à vida está garantido constitucionalmente, é um direito de todas as pessoas e mais do que isso: é o principal direito no ordenamento jurídico, do qual decorrem todos os demais. Apesar de a vida humana ser o bem de maior proteção dentre todos os direitos, ainda assim, existem limites e a legislação autoriza que alguém retire a vida de outrem em casos de defesa de um bem de igual valor, ou seja, outro direito à vida, autorizando a legítima defesa e o estado de necessidade. 

A interferência da moralidade religiosa está presente em várias esferas sociais, mesmo em sociedades caracterizadas como laicas. Isso pode representar um fator de redução da autonomia dos indivíduos diante da opção pela eutanásia, na medida em que os dogmas religiosos influenciam no direito individual de escolha pela antecipação da morte por pacientes sem perspectiva de cura e na opinião da sociedade em geral. 
   
Dentre as religiões, sobre a eutanásia, no budismo, apesar da vida ser um bem precioso, não é considerada divina, pelo fato de não creem na existência de um ser supremo ou deus criador. Não existe uma oposição ferrenha à eutanásia ativa e passiva, que podem ser aplicadas em determinadas circunstâncias. A posição islâmica em relação à eutanásia é que sendo a concepção da vida humana considerada sagrada, proíbem a eutanásia, bem como o suicídio, pois para seus seguidores o médico é um soldado da vida, sendo que não deve tomar medidas positivas para abreviar a vida do paciente. No entanto, se a vida não pode ser restaurada é inútil manter uma pessoa em estado vegetativo utilizando-se de medidas heroicas. O pensamento judaico é de que o conceito de santidade da vida humana significa que a vida não pode ser terminada ou abreviada, tendo como motivações à conveniência do paciente, utilidade ou empatia com o sofrimento do mesmo. Em síntese, a halaklan proíbe a eutanásia ativa, mas admite deixar morrer um paciente em determinadas condições. Representando o posicionamento católica, podemos ver uma condenação a eutanásia feita pelo Papa João Paulo II, reafirmando que “nada nem ninguém pode autorizar a morte de um ser humano inocente, porém, diante de uma morte inevitável, apesar dos meios empregados, é lícito em consciência tomar a decisão de renunciar a alguns tratamentos que procurariam unicamente uma prolongação precária e penosa da existência, sem interromper, entretanto, as curas normais devidas ao enfermo em casos similares. Por isso, o médico não tem motivo de angústia, como se não houvesse prestado assistência a uma pessoa em perigo”. A posição de outras denominações cristãs mais significativas, em sua maioria, é a favor da eutanásia passiva, a fim de evitar o prolongamento do sofrimento do paciente, mas são contra a eutanásia ativa, por esta ser considerada uma ação de matar o outro ser humano.




Prolongamento da vida em prol do avanço da medicina

É de conhecimento geral que a medicina melhorou a qualidade de vida das pessoas quando a questão é alguma enfermidade ou apoio para uma melhor saúde. Nos últimos 100 anos, houve um aumento da expectativa de vida em mais de 30 anos - lembra o neurocientista Stevens Rehen, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ademais, muitas das vezes a vida de uma pessoa em estado terminal pode ser prolongada com os avanços da medicina. 

Outrossim, pode ocorrer da doença de uma pessoa, que está dependendo de remédios, aparelhos e consultas médicas, ser usada para pesquisa, por exemplo. Nesse caso, ambos ganham com essa troca. A medicina ganha uma oportunidade de aprender mais sobre tal doença, e a pessoa uma chance de viver mais e ter apoio médico. O avanço do que se sabe sobre as doenças só é possível com experimentos e testes, que muitas vezes um rato de laboratório não é o suficiente, como é uma pessoa realmente doente e que necessita de um tratamento. Por que não ajudar na melhoria da medicina quando se tem a oportunidade?

Contudo, algumas vezes nessas situações, uma pessoa que não queria estar se submetendo a tais experimentos e medicamentos, pode estar sendo “obrigada”, justamente pelos cientistas ou médicos, ou às vezes até mesmo para agradar sua família e poder viver mais tempo ao seu lado. Temos um exemplo disso em Tuskegee, Alabama, Estados Unidos. 400 portadores de sífilis foram cobaias de pesquisas, que poderiam ser curados, mas foram mantidos doentes por muito tempo para que a pesquisa continuasse, porém terminou em 1972 com uma denúncia da própria comunidade científica.  O Estudo de Sífilis de Tuskegee rendeu grande parte das informações que temos hoje sobre a doença, mas é consenso que foi um grande erro. As pessoas realmente devem sofrer ainda mais para ajudar em pesquisas?




O papel dos profissionais de saúde diante de doenças sem perspectiva de cura

O Doutor Christian Barnard, o cirurgião sul-africano que realizou o primeiro transplante de coração, afirma que “o principal objetivo da medicina é o de aliviar o sofrimento, não o de prolongar a vida”, e acrescenta: “Meu conceito de medicina é de que os médicos deem aos seus pacientes uma vida boa. E a morte é parte da vida. Se não podemos dar-lhes vida, que lhes demos uma boa morte”.
 
A expectativa perante os profissionais da área da saúde é que eles esgotem todas as possibilidades para salvar a vida de seus pacientes. Portanto, a eutanásia pode ser vista como contrária aos valores médicos e éticos. 

Contudo, o direito da escolha do paciente e a determinação do seu limite deveria ser prezado pelo fato de que o conforto é necessário para um ser humano. No filme “Como eu era ante de você” é claro o direito de escolha de uma pessoa que não tem mais perspectiva de vida diante de suas dificuldades. 

E o profissional de saúde, que na maioria das vezes é contrário à escolha da eutanásia, como fica nessa situação quando seu objetivo é salvar vidas?



Referências Bibliográficas

GOMES, Luiz Flávio. Eutanásia e o novo código de ética médica. Disponível em http://www.lfg.com.br - 15 outubro. 2009.


http://www.publicadireito.com.br/artigos/?cod=bc6dc48b743dc5d0
https://www.google.com.br/amp/s/super.abril.com.br/ciencia/cobaias-humanas/amp/


Sugestões de outros tipos de fonte

Filme- Você não conhece o Jack (You don't know Jack – 2010) que conta a história real de Jack Kervokian, um médico que realizava a eutanásia para pacientes em estado terminal e em sofrimento agudo.
Documentário- A Partida Final: Diante do fim inevitável, pacientes terminais conhecem profissionais de saúde extraordinários.
Documentário- Extremis:  retrata as decisões de vida ou morte para médicos, pacientes e famílias na UTI de um hospital.
Filme- Como eu era antes de você (2016).


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